Companhia de Caçadores 2759

Res Non Verba

Visita aos doentes e almoço de Natal

Madeira - 2013

Moçambique  1970   - 1972

 

Em tempo oportuno, enviei uma comunicação dizendo que me iria deslocar à Madeira, para uma visita de solidariedade e acompanhamento aos nossos doentes, e para me inteirar das reais dificuldades em que outros vivem, sendo que esse convite foi extensivo a todos os que quisessem acompanhar-me nessa missão.

Responderam à chamada o Victor Lourenço e o Cândido Couto.

Os três partimos no dia 6 de Dezembro, e como já é habitual contamos com a colaboração dos camaradas Madeirenses, Ressureição de Freitas, Fernando Carvalho, João Gonçalves e Décio Vasconcelos. Depois de confirmar o programa para sábado e Domingo, cada um remeteu-se ao descanso.

No Sábado estava combinado um almoço de Natal no restaurante “Vides”, já com o preço e ementa previamente acordados daqui do Continente. Antes porém, fomos à procura do nosso camarada Quintino e encontramo-lo no Cabo Girão, com um boné com as cores Nacionais a seu lado, onde repousavam três moedas no total de 0,90€ enquanto ele procurava chamar a atenção dos poucos turistas tocando gaita-de-beiços de um modo desafinado, batendo com a mesma de vez em quando na sua perna para lhe extrair a saliva, enquanto eu de braços cruzados na sua frente o fixava sem uma palavra.

Aproveitando a deixa de uma curta conversa com uma turista Nacional que ele estava a ter sobre o tempo que passou em Moçambique, perguntei-lhe qual tinha sido a Companhia dele ao que respondeu 2759! A conversa desenvolveu-se e nela entrou o Victor Lourenço e o Couto. Olhamos para aquele corpo completamente disforme, barba por desfazer, mal vestido, e depois de nos entreolharmos os três ele sentiu que estava a falar com alguém da Companhia, até que nos reconheceu!

Em primeiro o Victor e depois a nós.

Levamo-lo a almoçar connosco e com o restante grupo. Tinha uma alegria muito especial no rosto, estava num convívio pela primeira vez, a rever camaradas que já não via há muitos anos e isso estava bem espelhado na alegria que deixava transparecer.

Perguntou-me se podia comer o que quisesse, respondi-lhe que dentro do menu que estava acordado podia comer a quantidade que tivesse vontade. Caros amigos, foi uma alegria vê-lo comer! Não olhamos a quantidade, mas reparamos que ele tinha ficado confortavelmente saciado, satisfeito e há muito tempo que ele não tinha uma refeição assim! Também nós ficamos felizes.

Neste convívio de Natal estiveram presentes 70 pessoas, o que permitiu manter viva a chama da amizade da C.Caç 2759, a satisfação dos nossos camaradas e famílias pela nossa presença, pedindo mesmo para em 2014 voltarmos a repetir, pois eles por si só não se conseguem organizar para levar a cabo estas iniciativas. Não por falta de capacidade, mas por falta de liderança. Acabamos o dia com uma visita a casa do Zé Fernando que adiou a sua partida para França só para estar presente.

No Domingo fomos à Igreja da Boa Nova, onde realizamos a missa solene em 2010, e como era dia da Imaculada Conceição, Padroeira de Portugal, assistimos às cerimónias desse dia. Depois, bem, depois foi uma corrida contra o tempo para visitarmos os nossos doentes.

No Estreito visitamos o Cabo Correia, já acamado e sem amor pela vida! Triste, muito triste, não só pelo seu estado, mas também pelo que a sua família sofre, física e moralmente. De seguida partimos para casa do Júnior que apesar da sua doença nos recebeu com uma alegria extravasante. Estava a ajudar os netos a fazer o presépio e descreveu-nos com minucia o quanto representava para ele e para os miúdos toda aquela azáfama e criatividade de recriar o nascimento de Cristo.

Antes de vos falar de outra visita, deixem-me registar aqui uma palavra muito especial para o Victor Lourenço que apesar das suas limitações de saúde fez questão de ir a todos os locais, descendo veredas muito difíceis de transpor, mas como grande KURIKA que é, parecia ter voltado aos tempos de juventude em que a saúde e o porte dele a todos nos impressionava. Mais uma vez o Victor demonstrou por atos que o seu amor e a sua disponibilidade para as grandes causas são apanágio do seu enorme coração. OBRIGADO VICTOR, A C.CAÇ 2759 MUITO TE DEVE!

Fomos então para o Funchal onde visitamos o Cabo Costa. Continua na mesma. Reconhece as pessoas, lembra-se de tudo, mas vive amarrado a uma cadeira de rodas em que a única palavra que pronuncia é: tá.tá.

Depois de almoço fomos para Machico visitar o Américo. É um problema grave irreversível, e quando nos aproximamos da casa dele já ele andava junto ao portão aguardando a nossa chegada. Uma pequena nota para dizer que todos foram avisados previamente da nossa visita. Estava impaciente, queria ver os camaradas, queria sentir o calor de um abraço humano, e aquele Américo que tínhamos visto em 2012 na casa de saúde, com 45 kg era uma pessoa completamente diferente. Deixou de beber, tinha engordado 5Kg ( hoje segundo conversa que tive com a esposa já vai em 12kg) mas infelizmente o mal está lá e é grave.

Por ultimo fomos visitar o Spínola ao hospital do Funchal onde estava internado.

Camaradas, não há palavras para descrever a emoção e tristeza que se apoderou de nós. Ver numa cama um pequeno corpo ( foram-lhe amputadas as duas pernas) com um olhar vago e perdido, sem reconhecer ninguém, sem falar, distante de tudo e de todos, não só nos deixou fortemente abalados como nos fez reportar ao tempo em que aquele ser ali deitado tinha sido um jovem cheio de saúde , de alegria, de uma grande disponibilidade sempre que íamos de coluna à Chinhanda, onde nos preparava o celebre frango à Chinhanda. Sabíamos que a nossa presença pouco ou nada adiantava, mas havia em nós um sentimento comum que nos impedia de sair. Estivemos o tempo que nos foi possível à sua cabeceira e era já noite quando regressamos ao hotel.

Depois do que vimos e sentimos não nos apetecia jantar, por isso , sentamo-nos os três na varanda do hotel, fizemos os nossos comentários e tiramos as nossas conclusões desta viagem relâmpago à Madeira.

Segunda – Feira, reuni com a Senhora Secretária Regional da Cultura Turismo e Transportes, Srª. Drª Conceição Estudante, fazendo já a abordagem para as nossas solicitações relativas ao convívio de 2015 a realizar na Madeira.

De seguida chegou a hora da partida, com o sentido do dever cumprido, mas também da responsabilidade do muito que há para fazer.

Penso que vos deixamos aqui um pequeno resumo desta viagem e da situação que encontramos que por ser tão grave, não posso deixar de renovar o meu apelo para que cada um, dentro das suas possibilidades, contribua para o fundo da C. Caç. 2759 o qual também já estamos a alargar ao Continente onde já deparamos com situações muito difíceis.

Como nota final e para que não se levante qualquer duvida, digo-vos que esta viagem foi custeada por cada um de nós e da nossa inteira responsabilidade.

Agradeço ao Victor Lourenço e ao Cândido Couto a disponibilidade que tiveram para me acompanhar. Sem eles a viagem não seria a mesma coisa. Obrigado por mim e pelos nossos camaradas Madeirenses.

 

Um forte abraço KURIKA

 

Zé Gouveia

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