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Em foco: Fomos soldados

 

 Origem: Revista MAIS do Diário de Notícias da Madeira - Domingo, 28 de Novembro de 2010

 Texto: Raquel Gonçalves

 Fotos: Octávio Passos  e DR

"Sinto que apenas pode haver soldados e marinheiros (portugueses) vitoriosos ou mortos". A frase de Oliveira Salazar, proferida em Dezembro de 1961, cumpriu-se pela metade. Muitos morreram no Ultramar e os que regressaram nunca se sentiram vitoriosos.

Meses decisivos Os soldados portugueses iam para África ainda meninos e regressavam de lá homens.

As memórias da guerra são difíceis de esquecer.

Documento de acção psicológica, lançado por aeronaves no território da Guiné para conduzir elementos do PAIGC à deserção.

Tinham 20 anos e foram defender solo português em países que não conheciam, mas que eram o Portugal de além-mar. Nos anos 60 e até 1974, a guerra era um destino certo para os jovens portugueses. Ninguém ficava surpreendido ao ser chamado para combater em nome da pátria nos territórios ultramarinos. Muitos não regressaram, outros regressaram para um novo regime que os criticava e ostracizava. O mesmo País que os tinha empurrado para a frente de batalha, apontava agora o dedo acusador. Esta foi a face mais dolorosa e marcante da guerra.

Henrique Costa Neves, furriel na Guiné, critica esta falta de apoio e a incompreensão irracional dos homens saídos da 'Revolução dos Cravos'. Os jovens que regressaram da guerra colonial não só não tinham apoio, como eram julgados por terem feito aquilo que o País os tinha mandado fazer.

Costa Neves critica a descolonização e culpa e impreparação dos políticos saídos de Abril

Fernando Norberto Carvalho numa foto actual.

A mesma falta de apoio sentiu o soldado Fernando Norberto Carvalho. Depois de 28 meses em Moçambique, foi-lhe dito para regressar a casa. À casa onde, ainda hoje, é assaltado por pesadelos e por noites em branco.

Só recentemente conseguiu apoio psicológico para os problemas que teve de enfrentar sozinho desde esse regresso. E ainda hoje não aceita que, depois de o terem mandado combater, tivessem feito a descolonização como fizeram: "deram tudo de mão beijada".

Henrique Costa Neves, vereador na Câmara Municipal do Funchal, recusa ser uma vítima da guerra. Admite que "ficam os fantasmas", mas é preciso combatê-los.

Treinado para comandar uma tropa de elite, onde se exigia controlo e domínio, reconhece que a guerra afecta todos os que passam por ela. Mas o treino recebido acabou, de alguma forma, por ter um efeito positivo e por ser uma forma eficaz de combater o 'stress' em campo de batalha e os traumas em tempo de paz. 

"Fui uma pessoa e regressei outra, com uma maior maturidade, independência e com maior autonomia. Mas é evidente que há fantasmas que temos de controlar e de manter em segundo plano".

Os fantasmas são os amigos que perdeu, os que ficaram em terras de África. "Costumo dizer que estivemos do outro lado, na linha ténue que separava a vida da morte. Houve alturas em que me senti do outro lado e foi interessante regressar ao lado de cá. Mas, enquanto estávamos no fio da navalha, é evidente que as situações não eram fáceis e tínhamos de resistir. Os fantasmas a que me refiro são eventualmente situações dramáticas de combate debaixo de fogo em que houve amigos que morreram e tivemos depois que resolver a situação".

Henrique Costa Neves põe mesmo esses fantasmas acima do medo, porque o medo, ao fim de algum tempo, era vencido. A guerra era, então, encarada com uma certa insensibilidade, algo que tinha de ser feito, mesmo que as razões não fossem claras.

Como refere Joaquim Vieira, na colecção 'Portugal Século XX', a floresta africana era destino obrigatório para os jovens portugueses, "que entram meninos na guerra e saem de lá homens". Um crescimento que se fez à custa de mortos, de estropiados, de traumas psicológicos que persistem após o regresso. E toda esta situação é mais dramática "sobretudo quando se perde de vista a intenção dos combates. Luta-se para quê? Para conservar o Império? Para acabar com a guerrilha? Para instaurar a paz? Para negociar uma transição? Para preparar a autodeterminação? Impossíveis uns objectivos, inaceitáveis outros, a guerra perde sentido. Mas os rapazes continuam a lutar sem questionarem a sua sina."

Este cenário, descrito por Joaquim Vieira, não está muito longe da verdade daquilo que foi, antes e depois, a Guerra Colonial e a história de uma geração enviada para combater.

Henrique Costa Neves deixou a Escola Superior Agrária de Coimbra em 1970 e em 1971 estava já a comandar um destacamento na fronteira com o Senegal.
Cerca de 40 homens, entre tropa africana e tropa dos Açores. "Ficámos na zona norte e a nossa missão era patrulhar a fronteira e evitar infiltrações do PAIGC para a Guiné".

A situação, recorda, agravou-se substancialmente em 1973, quando uma ofensiva do PAIGC a partir do Senegal se consubstanciou em longos meses de violentos combates. O PAIGC adoptava então a estratégia de estabelecer um cerco a um acampamento, levando as tropas à exaustão e tomando depois o aquartelamento
de assalto.

No sul, na fronteira com a Guiné Conacri, a estratégia tinha-se saldado em sucesso. A norte, onde estavam os homens de Henrique Costa Neves, desenrolaram-se "combates violentíssimos", mas as tropas portuguesas saíram vitoriosas depois de terem conseguido destruir a base do PAIGC que estava no Senegal.

"Só assim se conseguiu aliviar a frente norte. Tivemos de entrar pelo Senegal adentro, o que deu uma série de confusões com a ONU, porque o Senegal era um país supostamente neutro, mas permitia a movimentação, aquartelamento e instalação de bases do PAIGC".

Costa Neves reconhece que, na Guiné, as posições extremaram-se. Deveria ter acontecido uma solução negociada, que o general Spínola até estava a conseguir levar a bom porto, mas depois houve luz vermelha de Lisboa e a partir daí não havia volta a dar. "Ou nos rendíamos, e isso estava fora de questão, ou alguém teria de ser aniquilado, Era essa a sensação que tínhamos".

Foi isso que fizeram. Lutaram até a revolução de Abril. Lutaram até à exaustão. E ambos os lados da barricada estavam tão saturados que, na Guiné, a guerra acabou logo que o golpe aconteceu, em Lisboa, a 25 de Abril de 1974.

Mas isso foi muito antes. Antes de uma geração ter como destino certo a África portuguesa. "Aos 18 já não podíamos sair do País e aos 20 podíamos avançar a qualquer altura".

Henrique Costa Neves elogia, no entanto, o soldado português, considerado "um dos melhores do Mundo", porque era extremamente rústico e resistente, porque estava habituado à miséria e à adversidade.

Foi esta geração que aprendeu em África a não pensar no dia seguinte, a não fazer planos. O furriel Costa Neves sabia que era assim e, por isso, impedia que os soldados tivessem em sua posse um calendário onde pudessem marcar os dias. Essa marcação diária poderia ser um golpe psicológico tremendo.

 Hoje, ao olhar para trás, para além da guerra, aponta dois episódios pós-guerra, como aqueles que mais o chocaram e marcaram.

O primeiro foi a forma apressada como se fez a descolonização. "Foi um desastre que aconteceu em Portugal por impreparação e por precipitação dos políticos da altura. Na Guiné, os impactos não foram muitos. Mas eu ainda me lembro dos retornados de Angola e Moçambique."

A outra situação que o marcou foi a tentativa do poder político em Portugal esquecer e remeter ao ostracismo os ex-combatentes. "Só agora  é que começam a valorizar e a falar da nossa presença em África. Nós estivemos lá a defender o solo nacional. Fomos num regime e regressamos num outro, mas só agora começam a entender que a nossa presença em África era legítima. Por exemplo, estávamos na Guiné há 500 anos. Tínhamos alguma legitimidade para defender a bandeira e o solo nacional".

Apesar desta verdade, recorda que ele e outros, que regressaram a Coimbra para estudar, foram tratados como facínoras, apesar de não terem feito mais do que partir para África ao serviço do Estado português. Mas, entretanto, aconteceu uma revolução e o país saiu de um extremo para outro extremo. "Foi o descontrolo absoluto e foi nesse extremo que se fez a descolonização de forma desastrosa".

Costa Neves, como outros que combateram em África, sentiu, então e agora, uma sensação de vazio e de frustração.

Hoje ainda tem pesadelos com o cenário de guerra, mas controla a situação. Foi algo que passou.

Quando regressou da Guiné esteve um ano a "descomprimir". Jogou râguebi e praticou equitação. Tudo para esquecer aqueles 24 meses de combate, em que viveu com outros homens em abrigos subterrâneos, sem luz eléctrica, sem água, sem nada.

Tudo isto, quando vivido aos 20 anos, não se esquece, deixa marcas. E isso nota-se quando Fernando Norberto Carvalho, combatente em Moçambique, não consegue reter as lágrimas. A guerra, que lhe marca a pele em forma de tatuagem, onde se lê África em letras capitulares, deixou outras marcas bem mais profundas, menos visíveis, mas mais dolorosas do que a tatuagem de um percurso e de um destino seu e de uma geração.

Fernando Norberto, natural de Santana, já estava a viver e a tentar a sorte no Funchal quando, a 15 de Dezembro de 1969, assentou praça.

Fernando no tempo em que esteve em Moçambique.

Recebeu o fardamento e, durante 15 dias, aprendeu a reconhecer alguns postos do Exército português aos quais era preciso bater pala na rua.

Ainda foi passar a 'Festa' a casa, mas depois voltou para seis meses de recruta, aos quais se seguiu uma viagem até Lisboa para "tirar a especialidade". A especialidade de Norberto foi a de atirador.

Embarcou a 22 de Julho de 1970 para Moçambique. Uma viagem de barco de 22 dias. Não era casado, nem queria. O futuro era demasiado incerto.

Durante a viagem ainda havia uma certa inocência. "Éramos crianças, nem sabíamos o que era a guerra. Durante a viagem tínhamos uns trocos e havia cerveja". O pior foi quando, já em Moçambique, começaram a aparecer os primeiros mortos. A partir daí a inocência já não teve redenção.

Recorda-se que recebia cerca de 800 escudos. Ficava com 300 para o vício dos cigarros e para a cerveja. O resto enviava para o irmão. No fim da guerra, tinha conseguido reunir cinco mil escudos, para comprar a roupa que não tinha e uma viagem para Lisboa, onde pretendia tentar o caminho da emigração. Um sonho que não passou disso mesmo: de um sonho. Marcado pela guerra, teve de fazer outro percurso e fê-lo sempre sozinho, esquecido pelo país que o tinha enviado para a frente de combate.

Acabada a guerra tinha tanto de seu, como tinha quando embarcou para Moçambique. Recorda de se despedir das pessoas e de estas lhe darem algum dinheiro.
Fui isso que levou e levou também a incerteza de um regresso. Os 28 meses que se seguiram não foram fáceis. "Fomos vendo os colegas a morrer e a pensar quando seria a nossa vez".

No percurso criavam-se amizades mais sólidas que o futuro. Na guerra, os companheiros são irmãos.

Cada dia que passava era uma vitória. A cada anoitecer e amanhecer agradeciam a Deus a sobrevivência.

Riscava os dias que passavam na parede e, por isso, os últimos foram os piores. Até o fim, a morte era uma possibilidade.

Enquanto a guerra decorria, tentavam sobreviver às minas e às emboscadas. Tentavam sobretudo resistir ao medo e à incerteza.

Para se sentir mais próximo da vida que lhe fugia, Fernando Norberto Carvalho arranjou uma madrinha de guerra. Uma rapariga do Porto Moniz.

As madrinhas de guerra eram confidentes, uma forma de falar com alguém que estava do lado de fora de toda aquela loucura.

Mesmo em guerra, a vida e o amor acabavam por seguir o seu curso. Nessas cartas, alguns "começavam a meter o pezinho e pediam as raparigas em namoro".

Trocavam fotos e confidências. "Era como agora com a Internet, só que na altura era através dos aerogramas que o Governo nos mandava. Eram chamados por nós de 'bate-estradas'. Um envelope que se dobrava sobre si mesmo, que ia meio aberto, mas que chegava ao seu destino". Alguns até tinham truques para que o texto não fosse lido pelos mais curiosos. Norberto escrevia em círculo, o que tornava difícil a leitura quando apenas um dos lados do subscrito estava por colar.

Afinal, mesmo em tempo de guerra, um homem tem de ter a sua privacidade. Chegou a corresponder-se com a senhora que é hoje sua mulher, mas deixou de o fazer quando descobriu que uma outra rapariga ajudava a responder às cartas.

Não foi fácil a guerra, todos os dias sentia que tinha a cabeça a prémio. As emboscadas eram o que mais temia. Podiam acontecer a qualquer altura. "Tive colegas que estavam a descansar para o almoço e que morreram com o comer na boca".

No perigo eminente, havia uma regra que não podia ser quebrada: era absolutamente proibido abandonar a espingarda mesmo que por alguns segundos.  
Ainda hoje Norberto Carvalho tem pesadelos. Sonha que está de serviço, que adormece e que, quando acorda, a arma não está lá.

"A arma ia para todo o lado connosco, até para fazer as necessidades. A mulher nunca anda ao pé da gente tanto quanto a arma".

As lágrimas voltam a cair. Desculpa-se porque se emociona muito. A vida não foi fácil na guerra e fora dela.

Hoje, tem a sensação de que tudo foi em vão. Foi lutar para depois darem a independência aos países africanos de uma forma que não compreende. "Aquilo foi dado de mão beijada. Era tudo português e agora já não é. Porquê? Portugal era grande, agora só temos miséria".

Fernando Norberto Carvalho também não compreende, nem aceita o desprezo de que foram alvo os ex-combatentes. Um desprezo que ficou logo muito claro no dia do regresso. Sabiam o caminho de volta a casa e foi esse caminho que percorreram sozinhos. E lá permaneceram sozinhos com os medos, as memórias, os traumas.

Apesar de tudo, era capaz de regressar hoje a Moçambique. Dizem que o país está mudado, que as estradas de terra onde antes procuravam minas estão agora alcatroadas.

Mas, a vontade maior é mesmo a de esquecer. "Não fomos para lá para ganhar a vida, fomos para perder a vida".

A vida que depois tentou recuperar. Casou aos 25 anos e mostra com orgulho a foto das duas filhas, uma delas na Marinha.

Às vezes não dorme, nem come. As lembranças estão demasiado vivas para que os dias sejam apenas de normalidade.

É esta a sina de quem foi chamado para a guerra numa altura em que a vida começava...

Nos anos 60 e princípios dos anos 70, os 20 anos eram assim: um caminho de incerteza. Uns regressaram, outros não. Por isso, ainda hoje os sobreviventes, quando se encontram, "fazem uma festa".

 

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